Agressividade: boa ou má?


Dentro do entendimento popular da agressividade humana, e na maioria das opiniões, essa é uma das emoções mais mal vistas no convívio social. E paradoxalmente a emoção mais incentivada no meio corporativo, mesmo que dissimuladamente através do incentivo da competitividade. Mas o meio corporativo é uma outra história. De tão mal vista pelo senso comum, essa emoção é facilmente negada ou reprimida por muitas pessoas que não a reconhecem em sua natureza. Em parte por entendimentos "misturados" de outras emoções e comportamentos, esses sim podem ter interpretações negativas, como a raiva e a violência. E pelas características de todas essas emoções a confusão é bastante natural.

Nos indivíduos, bem antes da raiva e mais ainda da violência, a agressividade é uma das emoções que compõem os humores, que são a vasta gama de estados emocionais  apresentados pelos indivíduos. A agressividade geralmente leva à ação seja pela expressão verbal e corporal ou por atitudes e comportamentos. Como todas as emoções, a agressividade é natural do ser humano e assim todos a vivenciam seja em maior ou menor intensidade. 


Na psicologia

A psicologia estuda a agressividade de duas maneiras: como reação ou como impulso. 

Como reação, está sob os estudos da teoria da aprendizagem social. Seguem as idéias behavioristas sobre como meio gera alguns comportamentos sociais a partir de  padrões que os indivíduos desenvolvem como resposta ao próprio meio. Quando há frustração, alguns comportamentos podem ser compensados. Outros quando não conseguem a compensação, podem produzir comportamentos desfavoráveis. Isso só é  diminuído pelo entendimento da aprendizagem cognitiva que diante da possibilidade das pessoas preverem seus futuros comportamentos, na medida em que conseguem representá-los mentalmente, conseguem assim alterar suas respostas ao meio.

Essa teoria rejeita a idéia da agressividade como impulso pois a partir da aprendizagem a agressividade pode ser aprendida através da observação e imitação. Ou ainda, quanto mais for reforçada, maior a chance de ocorrer. A resposta estará vinculada ao sucesso anterior ao lidar com a mesma situação ou situação semelhante, e assim previsíveis no comportamento.

Como impulso, a partir das teorias psicanalíticas de Freud, muitas das nossas ações assim são movidas. Quando algum instinto é frustrado um impulso agressivo é  produzido. Mais tarde, além do entendimento da frustração-agressão, houve o entendimento de que qualquer impedimento de realização de um impulso poderia produzir um comportamento agressivo.


Na filosofia

Na tentativa de se compreender a vida pelo viés intelectual e na busca do conhecimento, todas as áreas desenvolvem teorias possíveis, prováveis e improváveis sobre tudo. E isso não seria diferente com as emoções e comportamentos.

Alguns entendimentos filosóficos compreendem a agressividade como um desequilíbrio do amor, a força infinita que rege o mundo. Outros, vinculam a agressividade aos temperamentos, uma disposição do indivíduo em agir de um determinado modo segundo os humores que compõem o seu corpo físico e portanto, possivelmente herdados genéticamente. Essa teoria foi criada por Hipócrates, considerado o “pai” da medicina, que admitia quatro tipos de humores fundamentais que seriam o sangüíneo, fleumático, colérico e melancólico, sendo a agressividade mais evidente nos sangüíneos e coléricos.

Ainda no campo filosófico, Aristóteles desenvolveu a teoria das virtudes na moderação de emoções e valores. Dentre as virtudes e seus desequilíbrios no quadro de virtudes aristotélicas, a irascibilidade é a emoção em desequilíbrio  mais próxima da agressividade. Para Aristóteles a irascibilidade seria um vício por excesso ou seja, uma conduta ou emoção vivenciada exageradamente e assim afastaria o indivíduo da virtude moral da prudência. Neste entendimento, a moderação das emoções e dos valores ou seja, das paixões, seria o caminho do meio desejável e assim possível de se chegar as virtudes - uma aproximação superficial da ética aristotélica.

Dentre muitos filósofos e teorias que tratam desse tema, e de uma maneira muito geral, as virtudes seriam então a capacidade de se auto governar ativamente, em pensamentos e atos, para não estar submisso (passivo) às paixões (emoções em desequilíbrio). Avançando muito e em última análise, a virtude então se aproximaria da força para se agir em autonomia, indivíduo de posse de si (ativo, em equilíbrio) e em liberdade, como núcleo da ação moral -  uma aproximação superficial da ética espinosista (Espinosa).


Nas religiões

Semelhante ao entendimento cristão da mansidão, uma virtude moral onde através de uma postura pacífica, não necessariamente passiva, é possível combater alguns dos pecados capitais como a cólera, que também se aproxima da agressividade. A moderação, a mansidão, o caminho do meio, são posturas que também são valorizadas em outras filosofias religiosas como o budismo e o espiritismo, visando a harmonia das emoções diante da vida e seus desafios, como o modo mais proveitoso de se caminhar em direção a consciência, à evolução,  ao bem. Isso aparentemente se contrapõe a agressividade. Mas podemos entender a agressividade como positiva quando bem canalizada, orientada ao bom propósito. Pois se ela é natural dos indivíduos e portanto faz parte da nossa natureza, ela tem função útil. E positiva, porque não?


Outros entendimentos

Sem dúvida, a agressividade é uma força. Ela traz a capacidade da auto-afirmação permitindo ao indivíduo se colocar diante do outro, proporcionando o encontro. A palavra agressividade vem do latim aggredi que na sua etimologia está ad-gradi que tem por significado "caminhar em direção", "ir ao encontro". 

Apesar da agressividade acabar muitas vezes sendo relacionada a impulso-frustração, ela é absolutamente natural, faz parte também das nossas defesas e da conservação da espécie, principalmente nos tempos remotos onde caçar fazia parte da subsistência. Caçar para viver na idade antiga por exemplo, era um ato muito agressivo e que aparentemente não estava vinculado a frustração e sim, a necessidade de subsistência. 

Outro direcionamento positivo da agressividade é a cirurgia, por exemplo. Uma área da medicina absolutamente necessária, porém totalmente agressiva. Poucas ações são mais agressivas que abrir um corpo e expor suas vísceras. Apesar da ato agressivo, as cirurgias normalmente salvam ou prolongam vidas. Ou ainda na Tanatologia que é o estudo científico do processo da morte do corpo físico, mais utilizado na área policial.

Assim, quando falamos em agir, ativo, ação, ato, impulso, defesa, estamos falando também da agressividade, como impulso ou reação que nos leva à realização e nos traz a força necessária para o enfrentamento. Não me refiro a raiva, ao confronto hostil ou a violência. Me refiro a não-passividade, a não-letargia, a não-submissão à uma determinada condição. Ou ainda a capacidade de nos auto-afirmarmos como indivíduos singulares. Tendo a força de nos colocarmos pelas nossas diferenças e assim nos apresentarmos diante do outro e do mundo.  

Nos colocando diante do outro, pontuando considerações diferentes, estamos propondo ao outro também uma análise do seu posicionamento. O confronto de idéias, posturas e comportamentos obriga necessariamente o outro à reflexão, oferecendo mudanças, resistências ou certezas.

Assim, ser agressivo é aceitar o conflito mas não submeter-se ao outro ou ao fato. É se colocar diante de, sem precisar fugir ou paralisar pelo desafio ou pelo medo. É poder se lançar diante de tudo o que é desconhecido. Agressividade-positiva como a catalisadora da coragem, como um impulso agressivo-positivo e necessário para a existência.

Então, para não chegarmos à raiva e à violência, que tal fazermos as pazes com os nossos impulsos agressivos-positivos? Ou mais! Que tal também reconhecermos a nossa raiva e a nossa possibilidade de violência justamente para podermos optar pelo inteligente, consciente e sábio caminho do meio.

Podemos! Mas, será que conseguiremos? ;)

Comportamento e Enfermidades

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