Nos últimos anos, o fenômeno das bebês reborn, bonecas hiper-realistas que simulam bebês humanos com impressionante fidelidade, tem chamado a atenção não apenas como objeto de coleção, mas como expressão simbólica de necessidades emocionais. Para além da estética e da arte envolvidas em sua produção, essas bonecas têm sido adotadas por mulheres que lhes conferem estatuto de filhos: são alimentadas, vestidas, levadas ao médico, registradas em “certidões de nascimento” e, pelo menos em um caso, incluídas em litígios judiciais de guarda. Ainda que essa disputa tenha como pano de fundo interesses comerciais vinculados à boneca, ela também revela o desejo de partilhar uma convivência afetiva com ela.
Tal fenômeno, embora singular, não é exatamente novo em termos psicológicos. O uso de bonecas na vida adulta há muito tempo é presente em contextos colecionáveis ou terapêuticos. Em lares geriátricos, por exemplo, a doll therapy tem se mostrado eficaz no cuidado de mulheres com Alzheimer e demência, promovendo conforto, reduzindo agitação e restaurando, simbolicamente, a dignidade da experiência do cuidado. Segundo estudos relatados em Everyday Health e Human Life, a presença da boneca pode atuar como um objeto transicional, despertando memórias, promovendo interação social e reativando sentidos arquetípicos do feminino e da maternagem.
No entanto, quando essa relação simbólica ou imaginativa ultrapassa certos limites e se confunde com uma realidade, transformando-se em sintoma, ela nos convida a refletir: o que essa dinâmica revela sobre essas questões? E são muitas as possibilidades de estabelecer relações possíveis.
Os sintomas são portadores de sentido, e frequentemente expressam uma tentativa da psique de compensar algo que foi esquecido, negado ou reprimido. Nesse sentido, a maternagem exercida sobre bonecas hiper-realistas pode representar não um simples capricho, mas uma forma simbólica de lidar com feridas emocionais profundas, muitas vezes ligadas à infância, à rejeição precoce ou à impossibilidade da maternidade biológica.
O arquétipo da mãe, enquanto imagem psíquica coletiva, também estrutura nossa relação com o cuidado, o vínculo e a nutrição afetiva. Sua ausência ou distorção, seja por abandono, negligência ou relações maternas imaturas pode gerar uma busca por compensação no mundo externo. O uso da reborn como objeto de apego pode ser uma tentativa inconsciente de reencenar um vínculo que não pôde ser vivido ou de dar forma a um aspecto do feminino que permanece fragmentado.
Toda função simbólica tem um papel de mediação entre os conteúdos inconscientes e a consciência. No entanto, quando o símbolo é vivido como realidade literal, como no caso extremo de quem simula o parto de uma boneca, solicita assento preferencial no transporte público ou busca a guarda judicial para maternar um objeto, há o risco da regressão psíquica e da perda da capacidade de discernimento entre fantasia e o que chamamos de realidade objetiva.
A dimensão terapêutica: florais e o acolhimento da dor.
A escuta clínica desses casos exige delicadeza. Há histórias de perdas, de impossibilidades gestacionais, de traumas silenciosos. E, com certa frequência, um vazio de maternidade que se torna intolerável. Neste contexto, várias essências florais podem colaborar, além de um processo psicoterapeutico. Trago apenas três:
Paineira (Florais Filhas de Gaia) atua sobre a conexão com a Mãe física ou arquetípica, favorecendo vínculos afetivos mais seguros e amorosos. É especialmente útil para pessoas com sentimentos de abandono ou rejeição na infância, permitindo que o indivíduo acesse o cuidado e a proteção de modo interno, sem depender ou de apoiar-se somente em vínculos externos.

Evening Primrose (Florais da Califórnia) trabalha memórias profundamente inconscientes de rejeição, muitas vezes enraizadas na vida intrauterina ou nos primeiros contatos afetivos. Esta essência pode catalisar um movimento interno que pode remeter a transformação interior, promovendo abertura emocional onde antes havia retraimento e medo de amar. Sua ação é sutil, mas poderosa: ajuda a reorganizar os registros mais primários da existência.
Leucantha (Florais de Saint Germain), por sua vez, é indicada em casos de maternidade bloqueada ou imatura, incluindo situações de gravidez psicológica. Atua fortalecendo o vínculo entre mãe e filho, seja nas relações físicas ou simbólicas, promovendo uma reconexão com os instintos de cuidado e amor nutridor.
Para concluir, ao invés de patologizar tais manifestações de forma precipitada, podemos estabelecer uma escuta simbólica: o que está tentando nascer por meio desta boneca? Que parte da alma deseja ser cuidada, acolhida, redimida? Ou ainda, manifestar o cuidado de maternar e ser maternado, o vínculo que ainda não pôde ser vivido, reconhecido? Mitigar a solidão, a sensação de abandono, entre tantas outras possibilidades. A fantasia e imaginação não são meros produtos da mente criativa ou infantil, mas vias legítimas de acesso ao inconsciente e à realidade psíquica. Elas têm um papel central no processo de desenvolvimento. Criam zonas intermediárias entre o ego e o inconsciente, um espaço que se pode experimentar sem ser tomado ou invadido pelas imagens internas. É também por isso que a arte, os mitos e as narrativas têm tanto valor na psicologia analítica.
Quando acolhidas com seriedade e amparo terapêutico, essas expressões podem se transformar em porta de entrada para um trabalho mais profundo de reconexão com o feminino, com a criança interior e com os vínculos perdidos da história pessoal.
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Referências:
Jung, C.G.Tipos Psicológicos. Obras Completas. (CW 6) Petrópolis: Vozes
Jung, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo (CW 9/I) Petrópolis: Vozes
Winnicott, D.W. (1953). Transitional Objects and Transitional Phenomena.
Human Life e Everyday Health – artigos sobre Doll Therapy e Alzheimer.
Florais citados: Filhas de Gaia, Califórnia (Range of Light), Saint Germain.
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