Que tipo de solidão você vive?

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Neste texto, olho para a solidão não como uma coisa só, mas como uma experiência com muitas faces: algumas nos adoecem, outras nos amadurecem.

Há alguns tipos de solidão e certamente você vive pelo menos uma. Vamos começar pela mais atual?

A solidão característica do nosso tempo.

Não é apenas a solidão de quem mora sozinho, almoça sozinho ou passa dias sem encontrar alguém. É uma solidão mais paradoxal: a solidão de quem está o tempo todo conectado, respondendo mensagens, participando de grupos, assistindo aulas, trabalhando online, vendo pessoas pelas telas, acompanhando a vida dos outros pelas redes mas, ainda assim, sentindo falta de presença.

Temos a nossa disposição muitos meios de contato. E talvez nunca sentimos antes tanta falta de encontro.

A pandemia evidenciou isso de maneira bem clara. O trabalho online, os atendimentos virtuais, as reuniões por vídeo, os cursos à distância e as relações mediadas por telas já existiam ha algum tempo. Mas, de repente, deixaram de ser uma possibilidade e se tornaram a única forma possível de continuidade.

O online nos sustentou naqueles tempos e seria injusto negar isso. Ele permitiu trabalho, estudo, cuidado, atendimento, encontro, conversa, presença virtual. Para muitas pessoas, abriu acessos antes impensáveis. Reduziu deslocamentos, aproximou quem estava longe, trouxe contatos possíveis, permitiu que a vida não parasse completamente.

A casa virou escritório, sala de aula, consultório, espaço de reunião, lugar de descanso e lugar de produção. O corpo passou a permanecer mais tempo diante das telas. As fronteiras entre trabalho e intimidade ficaram bem frágeis. A presença foi muitas vezes substituída pela acessibilidade. Se tudo pode ser feito de casa, tudo parece poder ser feito a qualquer hora.

E nessa conexão permanente com distância física e produtividade intensificada a solidão que já andava por perto encontrou um solo fértil.

Conexão sem vínculo.
Comunicação sem encontro.
Exposição sem intimidade.
Adaptação constante e autonomia extrema.

Desempenho sem escuta e presença sem alma.

A solidão assim, passa a ser um modo de vida. O capitalismo não produz apenas mercadorias. Produz pessoas sempre disponíveis, sempre comparáveis, sempre convocadas a melhorar, vender, responder, aparecer, performar. E assim sofremos, nessa sociedade adoecida que enfraquece os vínculos, dissolve comunidades e substitui presença por conectividade.

Mas, a solidão não nasceu no contemporâneo

A filosofia sempre pensou a solidão. Talvez porque pensar de verdade, exija algum afastamento. Não necessariamente afastamento do mundo, mas afastamento do ruído imediato das opiniões, das respostas prontas, do senso comum. Tantos pensadores pensaram a solidão, desde nas diversas sociedades e seus modelos até nas religiosas ou espirituais.

Nietzsche, em Assim falou Zaratustra, faz da solidão um lugar de diferenciação. Há momentos em que o indivíduo precisa afastar-se do barulho, do mercado ou da praça pública, da repetição coletiva, para escutar algo mais próprio. “Foge, meu amigo, para a tua soledade”, escreve Nietzsche. Não se trata de desprezo simples pelos outros, mas talvez da necessidade de não viver apenas como eco do rebanho.

Schopenhauer, por outro lado, vê na solidão também uma forma de proteção. Em seus Aforismos para a sabedoria de vida, a solidão aparece como condição de liberdade interior para aquele que não depende sempre da distração ou da aprovação externa. Há nele um tom mais severo, às vezes pessimista: a convivência humana pode ser fonte de vaidade, disputa e sofrimento; a solidão preservaria algo da vida interior.

Hannah Arendt nos ajuda a fazer uma distinção fundamental: estar só não é a mesma coisa que estar abandonado. Em As origens do totalitarismo, ela diferencia isolamento, solitude e solidão. A solitude pode ser o estar consigo mesmo, em diálogo interior; a solidão, no sentido mais grave, é a experiência de perda de mundo, de desenraizamento, de abandono pelos outros e até por si mesmo.

Essa distinção é preciosa para o nosso tempo.
Porque há uma solidão que recolhe.
E há uma solidão que exila.

Há uma solidão que permite pensar, elaborar, amadurecer, escutar o que em nós ainda não encontrou palavra.
E há uma solidão que rompe os laços, empobrece o mundo interno, enfraquece a confiança e nos faz sentir fora da vida comum.

Talvez a pergunta não seja: “Por que estamos tão sós?”

Talvez seja: que tipo de solidão estamos vivendo?

Jung e a solidão da alma

Pelo olhar da Psicologia Analítica, a solidão também não pode ser tratada de forma simples. Jung nos ajuda a pensar a solidão em dois planos: como sintoma de uma cultura desequilibrada e como experiência necessária no caminho de individuação.

A psicologia de Jung não nasceu apenas da clínica. Ela se desenvolveu também em diálogo com a filosofia, com a mitologia, com a religião comparada, com a alquimia e com outros saberes. Jung não pensou a psique apenas como objeto clínico, mas como dimensão viva da existência humana. Por isso, sua obra conversa com perguntas antigas:

quem somos?
Como nos tornamos nós mesmos?
Que forças nos habitam?
Que imagens orientam nossa vida?
Como encontramos sentido?
Como nos relacionamos com a alma, com o sofrimento, com o mal, com o sagrado, com a totalidade?

Neste sentido, sua psicologia é irmã gêmea univitelina da filosofia que só faz questionar trazendo verdades temporárias e depois voltar para angústia, o "motor" do desenvolvimento e das realizações.

Em Jung, o ser humano não vive apenas para se adaptar ao mundo externo. A adaptação é necessária, mas não suficiente. Há também uma exigência interna de sentido, de verdade psíquica, de integração, de escuta da própria alma.

Quando vivemos apenas voltados para fora, para as demandas, os papéis, os prazos, os resultados, a imagem social, algo em nós começa a empobrecer. A persona, essa face social necessária com a qual nos apresentamos ao mundo, pode se tornar dominante demais. A pessoa funciona, responde, produz, atende, resolve, mas vai ficando distante de sua interioridade.

E talvez essa seja uma das solidões mais profundas do nosso tempo: não apenas a solidão de quem está longe dos outros, mas a solidão de quem se afastou de si.

Uma vida cheia de contatos pode ser profundamente solitária quando não há alma nela.

A solidão contemporânea se encontra aqui com a solidão existencial. Nascer num corpo definido, desenvolver toda a sua singularidade e morrer nele, sem mais ninguém ter a mesma experiencia de viver e sentir a vida daquele jeito.

A solidão existencial não é uma falha. Ela é parte da condição humana. Há travessias que ninguém pode fazer por nós. Ninguém pode viver nossas escolhas, nossos lutos, nossos conflitos, nossos encontros com a Sombra, nossas crises de sentido, nossas mudanças de consciência. Mesmo amados, acompanhados e cuidados, há muitas passagens em que estamos diante de nós mesmos.

Essa solidão pode gerar angústia e também pode gerar amadurecimento.

O processo de individuação, em Jung, não é um caminho de isolamento, mas de diferenciação. Individuar-se não é tornar-se separado dos outros; é deixar de viver apenas como resposta ao coletivo. É tornar-se mais inteiro, mais consciente das próprias contradições, imagens, complexos, desejos, limites, feridas e possibilidades.

Ninguém se individua por imitação. Ninguém encontra a própria alma vivendo apenas segundo as expectativas da família, do grupo, da cultura, da época, do mercado ou da praça pública.

Por isso, há uma solidão necessária. Uma solidão que não deveria ser apressadamente resolvida, preenchida ou distraída. Ela pode ser desconfortável, mas também é fértil. É nela que se abre espaço para perguntar:

O que em mim foi abandonado?

Que vida estou vivendo?

Que valores me conduzem?

Que mundo eu acredito habitar?

E que mundo habita em mim?



A filosofia ajuda muito nesse ponto, porque ela nos ensina a reconhecer a forma como vemos o mundo, muitas vezes sem perceber. Não vivemos apenas a partir de fatos. Vivemos a partir de interpretações. Vemos a vida através de crenças, valores, medos, desejos, imagens herdadas, ideias familiares, religiosas, científicas, sociais e culturais.

Autoconhecimento não é apenas saber o que sentimos. É também reconhecer a visão de mundo que sustenta nossas escolhas.

A filosofia pergunta:

essa ideia é realmente minha?

esse valor me amplia ou me aprisiona?

essa forma de viver corresponde à minha alma ou apenas à minha adaptação?

A Psicologia Analítica aprofunda essas perguntas, porque mostra que nossa consciência não é soberana. Somos tocados e alterados por imagens, símbolos, complexos e conteúdos inconscientes. Muitas vezes, aquilo que chamamos de “minha opinião” é também expressão de uma história psíquica, familiar e coletiva.

Nesse sentido, a solidão pode ser uma porta para o autoconhecimento. Mas apenas quando pode ser simbolizada. Quando encontra linguagem, escuta, imagem, reflexão. Quando não vira abandono.

A solidão que amadurece e a que adoece. Mas, e as flores?

É importante distinguir a solidão existencial da solidão contemporânea.

A solidão existencial é condição, angústia e necessidade. Ela pertence ao caminho de tornar-se quem se é. Não é algo a ser eliminado. É através dela que nos diferenciamos, que deixamos de viver apenas como repetição, que encontramos uma relação mais verdadeira com nossa própria alma.

Aqui, os florais não entram como fórmula contra a solidão. Entram como reflexão. Como linguagem simbólica. Como apoio ao discernimento. Não para fugir da angústia, mas para enfrentá-la. Não para apagar o vazio, mas para perguntar o que ele revela. Não para evitar o encontro consigo mesmo, mas para sustentar esse encontro com mais delicadeza e consciência.

Outra coisa é a solidão contemporânea.

Essa solidão não nasce apenas da condição humana. Ela nasce também de um desajuste social. É a solidão produzida por um modo de vida que nos isola enquanto promete conexão; que nos torna produtivos, mas nem sempre presentes; que nos oferece muitos contatos, mas poucos vínculos; que nos pede autonomia, mas frequentemente nos retira comunidade.

Aqui, sim, os florais podem entrar como cuidado.

Não como solução simplista, nem como fórmula geral, mas como recurso de reconexão com a alma, com o corpo, com os ritmos da natureza e com o caminho individual de cada pessoa. Eles ajudam a escutar como esse modo de vida atravessa uma existência concreta: em alguns, como isolamento; em outros, como exaustão; em outros, como vazio, ansiedade, irritação, adaptação excessiva, tristeza, perda de sentido ou dificuldade de vínculo.

Diferente da solidão existencial que pode ser amparada e trabalhada, a solidão contemporânea pode ser tratada porque ela se manifesta como desequilíbrio. Ela expressa a tensão entre uma natureza individual que busca saúde, sentido e pertencimento, e uma sociedade que frequentemente nos afasta de nós mesmos.

Há uma solidão que nos chama para dentro.

E há uma solidão que nos exila de nós mesmos.

A primeira pode amadurecer a alma.

A segunda precisa de cuidado.

Os florais como linguagem de escuta

Quando pensamos os florais nesse campo, talvez seja importante evitar a pergunta rápida: “qual floral para solidão?”

Essa pergunta pode empobrecer a escuta.
Não existem fórmulas prontas, não só em relação aos florais, mas na vida.

Se cada pessoa é uma singularidade, e se o trabalho com a terapia floral é justamente olhar para o sujeito, por que reduzir essa escuta a uma fórmula pronta ou sugerida?

Caro colega, se for um colega lendo este texto, pense comigo: por que se privar de conhecer aquela pessoa que está à sua frente? Por que deixar de ajudá-la a se reconhecer em sua própria natureza?

Tão fascinante quanto a leitura anímica das plantas é a complexidade de cada alma. Cada pessoa traz em si sutilezas, contradições, histórias e movimentos próprios. Como flores de um jardim único e imenso, que se abrem, pouco a pouco, para o sol da consciência.

Se isso virar apenas fórmula para você, talvez já não seja mais sobre
terapia floral. Pense nisso.

Voltando para o tema.
A solidão não tem uma única face. Há muitas solidões. E cada uma pede uma aproximação diferente.

Water Violet (Florais de Bach), pode nos ajudar a pensar a solidão da reserva, da distância, da autonomia. Há nela uma dignidade silenciosa, uma capacidade de recolhimento, mas também o risco de um isolamento defensivo, de uma superioridade sutil ou de uma dificuldade de se deixar tocar.

Heather (Florais de Bach), nos mostra outra face: a solidão que fala muito, procura muito, ocupa muito espaço, mas não consegue descansar no vínculo. É uma solidão barulhenta, que tenta se resolver pelo excesso de contato e exposição. Muito atual, se pensarmos em uma cultura que se comunica sem cessar, mas nem sempre se encontra.

Agrimony (Florais de Bach), traz a solidão escondida atrás da adaptação. A pessoa segue agradável, sorridente, funcional, produtiva, mas por dentro carrega inquietações não ditas. Em tempos de performance, Agrimony é uma imagem importante: a solidão de quem parece bem, mas se sente profundamente desencontrado de si, por fugir desse encontro.

Honeysuckle (Florais de Bach), pode falar da solidão presa ao que passou: ao mundo anterior, às relações que mudaram, às perdas, à vida antes da pandemia, antes do luto, antes da ruptura, antes da transformação. Há solidões que vivem voltadas para um tempo que não volta.

Walnut (Florais de Bach), é a solidão das passagens. Toda transição carrega uma dose de desenraizamento. A pessoa já não pertence ao que era, mas ainda não se instalou no que está vindo. É uma solidão de fronteira, de mudança, de travessia. Precisa continuar transitando mas sem deixar de ser o que é ou no que está se transformando e sendo ainda assim, cada vez mais ele mesmo.

Wild Oat (Florais de Bach), se aproxima da solidão existencial da falta de sentido. A vida pode estar cheia de tarefas, mas algo pergunta: para onde estou indo? O que quer se realizar em mim? Que caminho corresponde à minha alma? Aqui a solidão não é apenas falta de companhia; é falta de direção interior.

Star of Bethlehem (Florais de Bach), pode tocar a solidão depois do impacto, da perda, do choque, da dor que ainda não foi integrada. Algumas solidões nascem quando algo em nós fica parado em uma experiência difícil e não consegue retornar inteiramente ao fluxo da vida.

Chicory (Florais de Bach), pode revelar a solidão dentro dos vínculos, quando o medo de não ser amado, lembrado ou necessário leva a tentativas de prender o outro. Há relações cheias de presença física, mas atravessadas por insegurança, expectativa e controle.

Clematis (Florais de Bach), pode nos ajudar a pensar a vida pouco encarnada, afastada do corpo e do presente, muito projetada no virtual, no futuro, na fantasia ou no “depois”. Em tempos de tela, pode ser uma imagem delicada para refletir sobre a perda da presença concreta e a solidão que pode existir aqui.

Classicamente, nenhum desses florais são para a solidão. Com excessão de Water Violet, num contexto específico. Mas, como todos os comportamentos humanos e suas emoções, estão entrelaçados, encadeados, conectados e se relacionam reverberando um no outro.

Nenhum desses florais deve ser tomado como rótulo. Eles são linguagens. São modos de perguntar melhor.

Que solidão é esta?

Ela me recolhe ou me abandona?

Ela me protege ou me isola?

Ela me chama para a alma ou me afasta da vida?

Ela nasce de uma travessia interior ou de uma adaptação excessiva a um mundo adoecido?

Talvez seja também aqui que a terapia floral se aproxime da Psicologia Analítica: ambas nos convidam a escutar a singularidade. Não basta nomear o sintoma. É preciso compreender o sentido daquele sintoma naquela vida.

Perguntas para o nosso tempo

Que solidão em mim precisa ser escutada?
E que solidão em mim precisa ser cuidada?

Talvez seja também nesse ponto em que Psicologia Analítica, filosofia e florais possam caminhar juntos: não para eliminar a solidão como se ela fosse um erro, mas para reconhecer quando ela é sintoma de uma vida empobrecida e quando ela é chamado de alma.

No fim, talvez a tarefa seja reaprender a estar com os outros sem perder a nós mesmos, e reaprender a estar conosco sem desaparecer do mundo.

Sobre a Autora:

🌿 Ana Roxo é Filósofa, Psicoterapeuta, Especialista em Psicologia Analítica, Especialista em Psicossomática de abordagem junguiana e Terapeuta Floral. Atua há mais de 20 anos em atendimento clínico, integrando esses saberes nos seus atendimentos, cursos de formação e aprofundamento.

Junho, 2026.

Referências Bibliográficas:

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BACH, Edward. Cura-te a ti mesmo. São Paulo: Pensamento, 2006.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2014.
JUNG, C. G. O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis: Vozes, 2011.
JUNG, C. G. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 2013.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria de vida. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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